O gosto das azeitonas verdes (ed. Cousa, 2026) reúne crônicas inéditas de 2013 a 2025, com imagens de algumas xilogravuras. Texto de orelha dos editores Saulo Ribeiro e Gabriel Nascimento.
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VAMOS!
Vamos!, vamos dar corda ao nosso amor improdutivo, pretextar um imprevisto, preterir os tais impreteríveis compromissos e passar um tempo no deserto sem férias que justifiquem… vamos!, vamos ver os gatos tomando sol nas pedras, as ovelhas no caminho do farol de Santa Marta e o rosto do pescador engelhado de tempo e estio, vamos!, vamos que o mar nos guia, e mais longe ainda, até o farol do Fim do Mundo, lá onde o ar é mais puro e as montanhas se duplicam invertidas no espelho dos lagos, vamos ouvir o grande silêncio desses lagos, provar do fruto escuro do calafate e dos milhões de anos calados na brancura das florestas petrificadas, e mais, vamos além, do Sul ao Norte num átimo da vontade, ver na orla das ilhas remotas os ostraceiros, com seus bicos enfiados na areia, sentir os juncos crescendo nas rachas do lodo seco e o ritmo dos dias para quem ainda hoje vive nessas ilhas, que sim, há tantas vidas possíveis e tão mais cheias de sal que as nossas, sem roteiros nem metas nem planilhas, vidas de tão mais substanciosas notícias, como a da passagem de uma baleia, ou do aparecimento de cachos de banana por quilômetros de praia, trazidos pelo naufrágio de um cargueiro, ou das danças estouvadas dos veleiros ao vento, vamos!, vamos provar uma pitada dessas vidas, enchendo de sal dos mares um momento desse dia, enchendo de sal e céu limpo e vento, faróis, ovelhas, gatos, baleias, ostraceiros e andorinhas, pelo menos isso, essa minúscula rebeldia de fazer que seja nosso (e tão nosso que seja insubornável) um momento nesse dia.
13/02/2016






