Glpe de asa_livro de poesia ed. Ardotempo 2026

Golpe de asa

Golpe de asa (ed. Ardotempo, 2026) reúne poemas recentes e imagens de xilogravuras. Texto de orelha de Marcelo Ariel.

A poética de Mariana Ianelli há mais de duas décadas se move em uma confluência de tempos: a casca do presente que chamamos de atualidade, palavra que tem a mesma raiz de “atuar”, atua como fios costurados a silêncios ensurdecedores de campos de batalhas, campos de massacres, que acolhem a dor do mundo. O tempo bíblico é como um vórtice lento dentro do tempo presente.

Mariana, como sua parente muito próxima Dora Ferreira da Silva, conversa com esse anjo das madrugadas em pleno dia. Poetas sentem a diurna insônia do mundo, os anjos observam de dentro da página e sopram sobre os signos o pólen da inquietação, da compaixão e da doçura que são o cerne da mitopoética bíblica.

Podemos afirmar que existe uma dicção bíblica na poética de Mariana. O outro tempo confluente presente em sua poética é o tempo amoroso da solidão. Rilke em consonância com o cerne de nossa época nos ensinou que “A solidão é amor”.

A coragem está justamente na transfiguração e interiorização que poetas como ela são capazes de elaborar, transformando as cinzas em frutos. Exige uma grande coragem habitar o silêncio nos intervalos do diálogo entre o anjo da morte e o anjo da história, e extrair da noite os frutos desse silêncio. 

Marcelo Ariel



GOLPE DE ASA

Era um homem magro de vaidades.
Não ostentava o quanto já tinha visto.
Tivemos um só dia de amizade
e o que dele ouvi ainda está comigo.
Contou-me que voltava para casa
era um fim de tarde e ele ia sozinho
entre o muro branco e o mato alto
quando foi absurdamente atingido.
Era um golpe de luz, de pluma, de asa.
De uma asa imensa que não era asa de pássaro.
Como se por acidente um rasgo
na fina película entre mundos
e só por isso o intruso desmesurado.
Trago comigo essa imagem
de um golpe de luz, de pluma, de asa.
De uma asa imensa que não é asa de pássaro.

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